• Criança

Escola sem Partido: Perspectiva Analítica

Efeitos psíquicos na vida dos estudantes diante da inversão perversa proposta por este projeto

Esse texto apresenta uma análise das consequências desastrosas para a relação ensino-aprendizagem diante do projeto "Escola Sem Partido" [nota 1] , que integra um movimento atual de destituição dos professores como figuras fundamentais na mediação do conhecimento. Os adeptos desse movimento pretendem ainda, derrubar o patrono atual da educação e eliminar o ensino público dentro da perspectiva histórica, crítica, libertadora e científica, como fosse essa uma forma de doutrinar os cidadãos segundo uma só ideologia. E ainda, propõem submeter o currículo escolar a dogmas religiosos e crenças das famílias a que pertencem os alunos, limitando também os conteúdos a serem ministrados nas escolas.

A proposta é apresentada como fosse um simples cartaz, afixado nas salas de aula ou nas salas dos professores, onde se explicitaria, de acordo com a Constituição do Brasil, deveres dos professores e direitos dos alunos. Mas não é somente isso. A proposta de lei discorre do assunto colocando professores e alunos em campos rivais e não solidários, assim como sob a vigilância dos pais e colegas. Quando o aluno é posto para vigiar e denunciar os professores, precisamos nos perguntar quais são os efeitos psíquicos na formação dos estudantes com essa nova responsabilidade imposta, uma inversão sem dúvida, perversa. Pensando agora no ensino fundamental, o estudante não vai mais para a escola somente para desenvolver aptidões sociais, brincar e aprender, condições necessárias para o seu pleno desenvolvimento, mas também, contraditoriamente, para monitorar e delatar aquele em quem ele deveria confiar e aprender.

Para aprofundarmos um pouco essa questão, retomaremos um conceito que está na base da teoria psicanalítica, mas que também é utilizado em vários outros campos que é o conceito da transferência. Trata-se de um fenômeno universal, Freud a define como amor, é a repetição, a reatualização da história dos nossos amores primordiais com os nossos novos encontros. Passamos a repetir as nossas experiências de amor, com novos personagens. O amor de transferência está em todas as nossas relações, na empresa, com nosso chefe, na nossa relação com o professor, na nossa relação com o médico, na nossa relação amorosa, na idealização que temos com determinada pessoa ou mesmo nas relações hostis.

As relações humanas são permeadas pela transferência, e sua base é o "suposto saber". O psiquismo humano funda-se a partir do registro de uma falta. No princípio o bebê está psiquicamente indissociado, como que fundido numa célula narcísica com a mãe, como fossem "um" só, completos. A dissociação se inicia com a entrada de um terceiro, incluindo-se no campo relacional do bebê e sua mãe, interrompendo a total satisfação, a sensação de ser um. Instaura-se aí a castração, ou seja, a incompletude, os limites de cada um dos seres envolvidos no relacionamento mãe-filho, e, por conseguinte, a incapacidade de total satisfação, já que são dois, ou três, e não mais um apenas. Marcado por essa falta, o sujeito passa a endereçar-se ao outro, supõe nesse outro o saber acerca de seu desejo, ou do que lhe falta, espera que esse outro lhe ofereça, em última instância, o amor. Mas não há saber que responda ou lhe restitua essa sensação de completude original. A busca por esse saber, que é seu, é que faz o sujeito relacionar-se em transferência, numa suposição inconsciente de que o outro sabe, mas, como não é possível encontrar aquela plenitude de saber que havia quando ainda era indissociado de sua mãe, ele passa a ser um ser desejante. É essa condição que leva todo ser humano a querer aprender e saber. A noção de transferência permeia todas as relações humanas, em sucessivas tentativas de restaurar e reencontrar aquela sensação de completude.

Aqueles que circundam o pequeno mundo da criança quando bebê, mas principalmente seus pais, tornam-se para ele fonte de aprendizagem de como ser no mundo. Num determinado momento da vida, os pais ou responsáveis, levam seus filhos à escola e autorizam o endereçamento da criança ao professor, como aquele que também sabe. A criança, através desta autorização, se submete à transmissão do professor, acreditando que ele tem um conhecimento que vai além dos conteúdos disciplinares, que ele tem um saber sobre sua singularidade, está estabelecida a relação transferencial necessária para o aprender, está feito o engate para a relação ensino-aprendizagem.

Mesmo que o professor ou aluno nada saibam sobre a transferência ela é inevitável e, mais do que isso, ela está implicada no aprender.

Com relação ao professor, este deverá renunciar à posição narcísica de saber, aquele que tudo sabe e tudo ensina sem admitir perguntas, aquele que não tem dúvidas, já que ele é "suposto" pelo aluno. Antes, e sim, é necessário que o professor assuma a posição de mediador entre o aluno e o conhecimento, incentivando-o a pensar e querer saber mais, a perguntar e perguntar-se. Desta forma, o sujeito que ensina descortina um mundo ainda desconhecido ao aluno, mas que, por transferência da confiança e dos vínculos que já haviam sido construídos em família, considera valioso o que lhe é ensinado, aprende e continua desejando aprender num movimento de aproximação (dependência) e afastamento (superação). É nessa relação imaginária que o professor interpreta os signos para o aluno, revela os segredos da matemática, da língua, da pátria… gradativamente o aluno apropria-se do conhecimento, vai tecendo laços sociais, identificando-se com uma tradição e, pertencendo a uma cultura, vai adquirindo uma identidade - existindo, portanto, como sujeito e cidadão, único em sua existência. [nota 2]

Ao professor é necessário suporte psicológico e pedagógico, para compreender a importância de sua renúncia narcísica de tudo saber, porém, essa é uma operação subjetiva e não acontece por ser ele retirado por lei da sua fundamental posição de educador. A renúncia narcísica do professor incentiva o aluno a ir além dos conhecimentos do próprio professor, por nele confiar e admirar o conhecimento como forma de se colocar no mundo de forma diferenciada. Portanto, para ensinar, o professor jamais pode renunciar ao domínio de sua prática docente, sobre as informações da cultura e da história que é seu dever transmitir. Ele tem que ficar atento às manifestações do educando, procurando levá-los a se perceber, encorajá-los a tentar, a experimentar, permitindo-lhes assumir novos papéis, ensinando-lhes a pensar e a questionar por si mesmos, não bastando apenas saber ler e escrever, mas podendo fazer uso social e político desse conhecimento em sua vida cotidiana, dando-lhes a oportunidade de também atuarem como protagonistas na sociedade.

Entendendo esses pontos, ampliamos a discussão sobre o que permeia esse texto: quais são os efeitos da inversão da lógica da transferência nas relações professor-aluno? Se a sociedade exigir do professor uma posição submetida à posição do aluno, e também aos pais, como está sendo atualmente proposto no projeto Escola Sem Partido, o que acontecerá com as escolas?

Como é que a criança irá conseguir se submeter à transmissão de conhecimento sem que se estabeleça essa relação transferencial afetiva?

A psicopedagoga Leila Sarah Chamat (1997), afirma que um bloqueio na afetividade impede um vínculo saudável ou afetivo entre o ser que ensina e o ser que aprende, seja na família ou escola. [nota 3]

Que lógica perversa é essa em que a criança é colocada na posição de fiscalizadora, julgadora e inquisidora de alguém a quem deveria ser admiradora para se entregar a essa experiência, essa aventura chamada conhecimento.

Crianças vigiando o "mestre", sociedade desconfiando daqueles que deveriam ser respeitados a avalizados pelas famílias e autoridades do país como os detentores dos conhecimentos a serem transmitidos de geração para geração. Que desconstrução é essa? Qual é o objetivo disso?

O que acontece quando esse controle ideológico e de censura está sendo exigido dos alunos pelo Estado? Que conflito é esse que estão querendo provocar na relação entre as crianças, jovens, pais e os professores? Como é que isso ainda pode estar sendo discutido no Brasil?

A sociedade precisa de escolas que ultrapassem a simples produção de conhecimentos, possibilitando a transformação de valores, contribuindo para a construção de uma sociedade mais justa e menos desigual. O que falta é uma educação mais crítica, uma educação capaz de desenvolver pessoas com capacidade de pensar - com capacidade de discernir entre o que é verdadeiro ou falso, certo ou errado.

O aluno não é um ser passivo como querem fazer acreditar os defensores desse projeto, que pode ser influenciado pelo professor sem qualquer resistência. [nota 4]   Os alunos possuem suas próprias convicções, construídas a partir dos conhecimentos e informações acumulados de toda uma vida, pela pluralidade de informações a partir de suas diversas relações: família, escola, igreja, amigos, mídia, etc. Os problemas normalmente são causados ou agravados pelo controle moral, pela intolerância, pela imposição de dogmas inflexíveis, pela falta de informação e reflexão sobre os assuntos. O conhecimento, a educação, o pensamento lógico e a crítica o protegem contra a vulnerabilidade.

Temos que reagir a favor da educação, a favor da justiça, a favor da vida. Não estamos discutindo a simples adoção de um cartaz nas escolas. Estamos discutindo a inversão da lógica ensino-aprendizagem, a destituição do lugar suposto saber dos professores, a limitação das ciências pelos dogmas religiosos, a redução dos currículos escolares, estamos colocando em xeque as instituições de ensino. Que as instituições do Brasil sejam solidárias e não rivais. É necessário que esse movimento da Escola Sem Partido encontre nos limites da Lei uma barra para a psicotização social que pretendem instaurar no país.

Curitiba, 12 de setembro de 2019
Elaine Beatriz Sartori

 

Notas do texto:

Este artigo refere-se ao Projeto de Lei nº 606/2016, que tramita na Assembleia Legislativa do Paraná, pretendendo instituir no âmbito do sistema estadual de ensino o Programa Escola sem Partido. Sendo que a posição oficial deste Centro de Apoio é contrária à aprovação do citado projeto. (nota do editor)

MONTEIRO, Elizabete Aparecida - A Transferência e a ação educativa - Dissertação de mestrado apresentado na USP. http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-71282002000200002

CHAMAT, Leila Sarah.Relações Vinculares e Aprendizagem: Um enfoque Psicopedagógico. Editora Vetor. São Paulo. 1997.

Fênix - Revista de História e Estudos Culturais Janeiro - Junho de 2017 Vol.14 Ano XIV nº 1 ISSN: 1807-6971 Disponível em: www.revistafenix.pro.br

 

Sobre a autora:

Elaine Beatriz Sartori. Graduada em Psicologia pela PUC-PR, possui especialização em Psicanálise pela Universidade Tuiuti do Paraná. Atua como Assessora Técnica do Centro de Apoio Operacional das Promotorias da Criança, do Adolescente e da Educação junto ao Ministério Público do Paraná.
Observação: Esse texto foi construído a partir de discussões e reflexões com uma Professora de toda uma vida, Maria Cecília Cardoso Teles.

 

Matérias relacionadas:   (links internos)
»   Educação
»   Educadores
»   Escola sem Partido:   Perspectiva Analítica
»   Escolas sem Partido
»   Publicações:   Educação - Escola sem Partido

Notícias relacionadas:   (links internos)
»   (13/09/2019)   ESCOLA SEM PARTIDO - Projeto vai a plenário na Assembleia Legislativa do Paraná
»   (31/01/2019)   ESCOLA SEM PARTIDO - MPPR se manifesta sobre “Escola sem Partido”

Notícias - Assembleia Legislativa/PR:   (links externos)
»   (28/05/2019 - ALEP/PR)   Maioria dos deputados decide retirar de pauta projeto Escola Sem Partido
»   (15/04/2019 - ALEP/PR)   Assembleia debate projeto que cria o programa Escola Sem Partido
»   (12/04/2019 - ALEP/PR)   Audiência Pública discute o projeto da Escola Sem Partido
»   (08/05/2019 - ALEP/PR)   Projeto "Escola sem Partido" recebe parecer favorável na Comissão de Ciência e Ensino Superior
•   Mais Notícias:   Escolas sem Partido

Notícias - Câmara dos Deputados:   (links externos)
»   (06/06/2019 - Câmara dos Deputados)   Professores defendem liberdade de ensinar em debate na Câmara
»   (13/02/2019 - Câmara dos Deputados - Entrevistas)   Escola sem Partido x Escola sem Mordaça
»   (21/02/2017 - Câmara dos Deputados - Vídeo - Expressão Nacional)   Escola sem Partido
»   (04/04/2017 - Câmara dos Deputados)   Comissão discute projeto da Escola sem Partido com procuradores da República
•   Mais Notícias:   Escolas sem Partido

Notícias - Portal MPPR:   (links externos)
»   (28/05/2019 - MPPR - MP no Rádio)   Projeto "Escola Sem Partido" foi tema do programa
»   (30/01/2019 - MPPR - Institucional)   MPPR se manifesta sobre “Escola sem Partido”
•   Mais Notícias:   Escolas sem Partido

Download:   (arquivos PDF)
»   Manual de Defesa contra a Censura nas Escolas (2018)
»   Projeto de Lei nº 606/2016-ALEP/PR - Escola sem Partido
»   Projeto de Lei PL nº 7180/2014 - Câmara dos Deputados

Referências:   (links externos)
»   ALEP - Assembleia Legislativa do Paraná
»   Câmara dos Deputados

Vídeos - Canal CAOPCAE no YouTube:   (links externos)
»   (28/05/2019 - MP no Rádio)   Escola sem Partido - Olympio de Sá Sotto Maior Neto
»   (17/12/2018 - Justiça para Todos)   Liberdade de cátedra - Francisco Monteiro Rocha Júnior

Recomendar esta página via e-mail:
Captcha Image Carregar outra imagem