Desenvolvimento Infanto-Juvenil e os Desafios da Realidade Contemporânea

Cleon S. Cerezer
Psicólogo Clínico

"A mãe (não necessariamente a própria mãe do bebê) suficientemente boa é a que faz uma adaptação ativa às necessidades do mesmo, uma adaptação ativa que gradativamente diminui, de acordo com a crescente capacidade do bebê de suportar as falhas na adaptação e de tolerar os resultados da frustração."
Winnicott [nota 1]

 

A tarefa de escrever sobre o desenvolvimento humano principalmente focado no que diz respeito às crianças e adolescentes na atualidade contemporânea é tão importante quanto a iniciativa do município de Porto Alegre em realizar uma capacitação prévia para os possíveis candidatos a conselheiros tutelares, cidadãos constituídos por esta cidade. Os efeitos dessa ação cidadã e responsável são diretas, tendo em vista a possibilidade multiplicadora de informações importantes com relação a cuidados realmente necessários as crianças e adolescentes em desenvolvimento.

Cuidar de uma criança, no sentido mais amplo do termo, significa comprometer-se com um tempo e um espaço que possibilite um viver criativo. Significa "olhar" para um ser em desenvolvimento e reconhecer nele um potencial orgânico e emocional para desenvolver-se protegidamente. Protegido não significa sufocante, por isso o termo "suficientemente boa" da epígrafe, que vai nos remeter a uma condição de equilíbrio entre frustração e gratificação das necessidades orgânicas e emocionais do ser humano desde bebê. "Mãe suficientemente boa" é aquela que gratifica e frustra seu bebê "na medida certa". Sabemos que não há uma medida certa, mas uma "mãe" (qualquer pessoa que desempenha este papel - ambiente cuidador) deve permitir-se mostrar como um cuidador que cuida, protege e gratifica e, ao mesmo tempo, o que interdita, proíbe e frustra. Sem falar que um cuidador também pode (e deve) mostrar que é falho, pois nas falhas do ambiente que lhe cuida, é que o bebê é convidado a rumar para uma constituição de sua individualidade criativa.

Metaforicamente como um leque o desenvolvimento humano desde o nascimento até o momento adolescente vai abrindo-se em novas realidades que o complexizam e comprometem o indivíduo a superar uma fase anterior.

A forma que escolho para abordar mais especificamente o desenvolvimento humano aqui neste texto é apresentando as fases do desenvolvimento baseando-me em dois referenciais teóricos: o psicanalítico e o piagetiano. É muito difícil prescindir de uma visão maturacionista para pensar e organizar didaticamente o desenvolvimento humano para estudo.

No início, há um desejo inconsciente ou conscientizado de que a espécie humana permaneça, um imperativo biológico que se mescla com um desejo de encontrar a plenitude, realização e continuidade. Num primeiro momento, Período Pré-Natal e Nascimento, o corpo da mãe serve como espaço para que a criança se desenvolva biologicamente (gestação), portanto os fatores ambientais influenciam significativamente nesta fase e inclusive de como emocionalmente esta mãe está passando por esta experiência, de maneira prazerosa ou traumática. O momento do nascimento é muito importante, pois há uma ruptura de um estado para outro. De um estado de dependência integral do corpo da mãe o bebê infla pela primeira vez os pulmões e começa sua trajetória unitária. Nascemos para morrer, esta não é uma frase trágica ou apenas de efeito. Entre nosso nascimento e nossa morte há um espaço, um espaço de vida onde devemos buscar sentido e realização plena.

A seguir, na Primeira Infância, o recém-nascido depende da amamentação e de todos os cuidados do ambiente em que vive. Não podemos esquecer que até possuirmos um nível mínimo de relativa independência, somos da espécie mais dependente, inclusive logo depois que nascemos. Um potrinho, numa questão de horas após nascer, está de pé e mamando na mamãe égua. O bebê humano não sobrevive se não é cuidado por outro.

Para Piaget [nota 2], este momento inicial do desenvolvimento caracteriza-se por sensação e motilidade. Aproximadamente dos 0 aos 2 anos: a atividade intelectual da criança é de natureza sensorial e motora (Período Sensório-Motor). Acredita-se que a criança ainda não representa mentalmente os objetos. Sua ação é direta sobre eles. Essas atividades serão o fundamento da atividade intelectual futura. A estimulação ambiental interferirá na passagem de um estágio para o outro. Neste período também já ocorre início do amadurecimento dos precursores da linguagem, por isso é importante estimular sempre o bebê em todas as áreas do desenvolvimento.

No que diz respeito ao desenvolvimento da personalidade e social, baseado nos referencias psicanalíticos de Freud [nota 3] e Erickson [nota 4], encontramos as fases do desenvolvimento psicossexual e psicossocial, respectivamente. Impossível não pensá-las interconectadas entre si. Freud pensou as fases psicossexuais tendo em vista a predominância de determinada zona erógena biológica que nos remeteria a explicações metapsicológicas do desenvolvimento emocional infantil como grande motor para fixações e configuração de aspectos personificadores do indivíduo na fase adulta. Eric Erickson postulava que as pessoas são seres ativos buscando adaptar-se ao seu ambiente, mais que passivos escravos dos impulsos, por isso os aspectos sociais e culturais interessaram tanto a este autor.

A primeira fase do desenvolvimento psicossexual infantil é chamada Fase Oral-Sensorial e o conflito básico seria o de confiança x desconfiança (0 - 1 ano). A zona erógena predominante é a boca (alimentação) e as relações com o ambiente cuidador é que vai balizar se o "mundo" (ambiente cuidador) é confiável ou não para este indivíduo se desenvolver.

A segunda fase psicossexual é chamada Fase Muscular-Anal, na qual a descoberta do controle esfincteriano anal torna-se uma fonte de interação substancial com o mundo externo e os movimentos de retenção e expulsão formam substratos personais tais como auto-controle, rigidez, obsessividade e sentimentos de perseguição. O conflito básico, neste momento, é autonomia x vergonha e dúvida (1 -3 anos).

Ingressando num período também chamado de Segunda Infância, no âmbito cognitivo (Piaget), inicia-se o Estágio pré-operacional, mais ou menos de 2 a 6 anos: a criança desenvolve a capacidade simbólica; "já não depende unicamente de suas sensações, de seus movimentos, mas já distingue um significador (imagem, palavra ou símbolo) daquilo que ele significa (o objeto ausente), o significado". Para a educação é importante ressaltar o caráter lúdico do pensamento simbólico. O brincar, não apenas o brinquedo, entra neste cenário como potente elaborador de conflitos e capacitador de formação de vínculos concretos e simbólicos.

Este estágio pré-operacional caracteriza-se pelo egocentrismo: isto é, a criança ainda não se mostra capaz de colocar-se na perspectiva do outro, o pensamento pré-operacional é estático e rígido, a criança capta estados momentâneos, sem juntá-los em um todo; pelo desequilíbrio: há uma predominância de acomodações e não das assimilações; pela irreversibilidade: a criança parece incapaz de compreender a existência de fenômenos reversíveis, isto é, que se fizermos certas transformações, somos capazes de restaurá-las, fazendo voltar ao estágio original, como por exemplo, a água que se transforma em gelo e aquecendo-se volta à forma original.

No que diz respeito ao desenvolvimento da personalidade e social (Freud e Erickson) é o momento da Fase Fálica. A zona erógena predominante é a dos genitais, a diferenciação sexual de gêneros é percebida mais evidentemente neste momento, e por isso que, também nessa fase, ocorre o chamado Complexo de Édipo, pois a diferença masculino/ feminino evidencia-se e há um "apaixonamento" pelo cuidador (ou representante deste) do sexo oposto. O conflito básico aqui é: iniciativa x culpabilidade (3- 6 anos). Depois desta fase, Freud acreditava que o indivíduo ingressava, por força da repressão dos instintos sexuais após o período edípico, num período chamado de latência, no qual regras e leis encontrariam maior propriedade para serem respeitadas e compreendidas, paradoxalmente uma proibição que permite. Neste momento também é quando acontece o início da escolarização formal (no Brasil, o Ensino Fundamental). A maturidade neuro-biológica-emocional encontra vazão de forma significativa para seu êxito.

Na Terceira Infância, ocorre o chamado Estágio das operações concretas, mais ou menos dos 7 aos 11 anos: a criança já possui uma organização mental integrada, os sistemas de ação reúnem-se todos integradamente. Piaget fala em operações de pensamento ao invés de ações. É capaz de ver a totalidade de diferentes ângulos. A criança conclui e consolida as conservações do número, da substância e do peso. Apesar de ainda trabalhar com objetos, agora representados, a flexibilidade de pensamento permite um sem número de aprendizagens por parte da criança. O conflito básico neste período é o de atividade x inferioridade (7 - 11 anos) e corresponde ao chamado Período de Latência para Freud, conforme já descrito antes.

A fase seguinte é o período de transição conhecido como adolescência. Para Piaget, no estágio das operações formais, mais ou menos dos 12 anos em diante, ocorre o desenvolvimento das operações de raciocínio abstrato. A criança se liberta inteiramente do objeto, inclusive o representado, operando agora com a forma (em contraposição a conteúdo), situando o real em um conjunto de transformações. A grande novidade do nível das operações formais é que o sujeito torna-se capaz de raciocinar corretamente sobre proposições em que não acredita, ou que ainda não acredita, que ainda considera puras hipóteses. É capaz de inferir as conseqüências. Têm início os processos de pensamento hipotético-dedutivos. Os que tiveram a experiência de apaixonar-se pela primeira vez na vida, isto foi um momento adolescente em que as operações formais piagetianas foram experimentadas com toda intensidade, principalmente contrastando com o período cognitivo anterior de pensamento concreto. Esta é mais uma das mudanças significativas neste momento da vida.

Pensando, o desenvolvimento humano metaforicamente como um leque, como referimos anteriormente, no momento adolescente o indivíduo, depois de ter nascido num meio familiar, estar inserido numa realidade escolar, abre-se finalmente para sociedade e cultura onde estiver inserido.

Atualmente, vivemos um período onde a sociedade e a cultura sofrem intensas mudanças e transformações de paradigmas e valores que incidem poderosamente na existência dos adolescentes. A atualidade e suas complexidades incrementam ainda mais este período evolutivo chamado adolescência, no qual transformações bio-psico-sociais acontecem, pois determina um momento de passagem do conhecido mundo da infância ao tão desejado e temido mundo adulto.

As transformações da adolescência ocasionam flutuações que se caracterizam por momentos progressivos - onde predomina, entre outros aspectos, o processo secundário, o pensamento abstrato e a comunicação verbal - e momentos regressivos - com a emergência do processo primário, da concretização defensiva do pensamento e a retomada de níveis não verbais de comunicação.

Com relação ao aspecto da sexualidade na adolescência temos de pensar a partir da puberdade (modificações biológicas) e da mudanças psico-sócio-culturais que estão implicadas no processo adolescente. Puberdade é um processo biológico que inicia-se em torno dos 9 anos e estende-se até em torno dos 14 anos. Como fenômeno orgânico de maciço desenvolvimento hormonal é o que origina os chamados "caracteres sexuais secundários". Percebemos que o adolescente, após isto, já estaria maduro organicamente para exercer sua genitalidade, porém cabe pensar neste momento se estaria "pronto" para viver a plenitude de sua sexualidade... Sabemos que genitalidade e sexualidade não são sinônimos, ou seja, a primeira significa o ato puro de uma relação sexual, enquanto que a segundo é muito mais abrangente, englobando além do ato da relação sexual também todo o envolvimento afetivo necessário para a completude de uma relação amorosa. Genitalidade está entre as pernas, sexualidade está entre as orelhas.

A identidade sexual, que começa a se organizar desde o nascimento, adquire sua estrutura, seu perfil definitivo, na adolescência. É nesta etapa da vida que ocorre a passagem da bissexualidade básica (infantil) para a heterosexualidade (adulta). Este processo integra a vivência do individuo de maneira muito significativa tanto em termos externos (sociais, culturais) como internos (pessoais, afetivos).

A adolescência é caracterizada por inúmeros elementos, dos quais podemos referir alguns: a perda do corpo infantil, dos pais da infância e da identidade infantil; a passagem do mundo endogâmico ao universo exogâmico; a construção de novas identificações assim como de desidentificações; a reorganização de novas estruturas e estados de mente; a aquisição de novos níveis operacionais de pensamento (do concreto ao abstrato) e de novos níveis de comunicação (do não verbal ao verbal); a apropriação do novo corpo; vivência de uma nova etapa do processo de separação-individuação; a construção de novos vínculos com os pais, caracterizados por menor dependência e idealização; a primazia da zona erótica genital; a busca de um "objeto" amoroso; a definição da escolha profissional; enfim, de muitos outros aspectos que seria possível seguir citando, mas, em síntese, referem-se a organização da identidade em seus aspectos sociais, temporais e espaciais. Se pudéssemos resumir muito sucintamente o período adolescente, diríamos uma palavra - identidade.

Adolescência é um momento de vida caracterizado por uma busca constante de diferenciação, discriminação e consecução de uma identidade. Deve ser vivenciado com "flexibilidade", ou seja, o ambiente que tem um adolescente no convívio deve permitir esta experiência vital de forma flexível, que não significa nem permissividade muito menos repressividade. É poder dar-se conta que na família que tem adolescentes toda a família adolesce. Superar este momento para conquistar amadurecimento é o desafio.

É importante salientar que nossos atos precisam significados, precisam ser simbolizados para podermos nos conectar com a dimensão subjetiva das relações que estabelecemos com os outros (nossos semelhantes), senão nos tornaremos vazios, desamparados e tristes.

Uma vez ouvi que: "Aos filhos devemos dar raízes e asas". Embora seja uma metáfora um pouco incoerente, ela se presta muito para pensarmos a tarefa de cuidar de uma criança ou adolescente. Raízes seriam de onde vão nutrir-se e sempre terão para onde voltar. Asas para alçarem vôos, inclusive mais altos que os pais. Se dermos muitas raízes, ficarão dependentes, não irão muito longe. Se dermos muitas asas, poderão perder-se ou andar sem rumo, sem sentido. No processo do desenvolvimento humano, para que crianças e adolescentes desenvolvam-se saudavelmente é necessário proteção e segurança por parte dos ambientes que lhes cuidam. O equilíbrio da proteção e do cuidado é da ordem que não sufoque e não restrinja o amplo amadurecimento e permita um viver criativo. O caminho se faz caminhando...

 

Notas do texto:

1 WINNICOTT, D. W. Da Pediatria à Psicanálise. Rio de Janeiro: Imago, 2000.

2 PIAGET, Jean. Epistemologia Genética. 2 ed. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2002.

3 FREUD, Sigmund. Edição Eletrônica Brasileira das Obras Psicológicas Completas. Imago. c1969. CD-ROM.

4 ERICKSON, ERIK H. Infância e Sociedade. Rio de Janeiro: Zahar, 1971.

 

Sobre o autor:
Cleon S. Cerezer é Psicólogo Clínico, Especialista em Psicoterapias Psicanalíticas de Crianças e Adolescentes, Psicólogo Escolar e Educacional, Co-autor do livro "O Mal Estar na Escola", Psicólogo do Centro de Atendimento Transdisciplinar da Secretaria da Educação de Capão da Canoa - RS. E-mail: cleoncerezer@hotmail.com

 

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Referência: (link externo)
»  Conselhos Tutelares - Prefeitura de Porto Alegre/RS

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Este artigo é parte integrante da "Revista Digital da Capacitação de Candidatos a Conselheiro(a) Tutelar - Conselho Tutelar - Eleições 2007", em CD-ROM (Março 2009)
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