• Criança

CAOP Informa

11/03/2020

OPINIÃO - Internet: mocinha ou bandida?

Com frequência, lemos textos sobre como a internet, e as redes sociais em particular, são usadas para divulgar conteúdos inadequados e até perigosos. Recentemente, um influenciador digital postou em seu canal no YouTube um vídeo sobre o chamado "desafio da rasteira", em que a vítima foi sua própria mãe, que levou uma rasteira dupla (do youtuber e do irmão), caiu e bateu a cabeça no chão. Teve muita gente que achou graça na "brincadeira" que, segundo se divulgou, chegou a causar a morte de uma pessoa, e o vídeo viralizou.

Mas os mesmos meios usados para difundir conteúdos nocivos também podem servir para falar de boas iniciativas. Foi o que fez um grupo de estudantes do ensino médio de um colégio em Peruíbe, no litoral de São Paulo. Eles também postaram um vídeo sobre o "desafio da rasteira", mas em que, na hora de aplicar a rasteira no colega, o abraçam e comentam que não vão derrubar o amigo, porque se importam com ele e sabem que várias pessoas já se feriram com a prática.

Para falar sobre o alcance dos influenciadores digitais na vida de seus seguidores, em especial os mais jovens que buscam modelos para se inspirar e novas formas de se comunicar, a psicóloga Elaine Beatriz Sartori, do Caop da Criança e do Adolescente e da Educação, escreveu um artigo de opinião. Ela chama atenção para o caráter nocivo de alguns vídeos e também para o fato desses conteúdos poderem ter um intuito pedagógico, uma vez que podem alertar para riscos. Qualquer que seja o caso, Elaine destaca o papel de pais e profissionais que trabalham com jovens para que procurem sempre orientá-los sobre o uso da internet e das redes sociais. Abaixo, confira a íntegra do artigo.

Andrea Morais
Jornalista da ASCOM/MPPR

 

Opinião

Cuidados com a influência de youtubers

Elaine Beatriz Sartori*

Vivemos diante de um fenômeno de mídia, que é a grande influência dos youtubers sobre seus seguidores (crianças, jovens e adultos). Eles gravam ou compartilham vídeos falando sobre um assunto qualquer e com isso vão agregando seguidores e se tornando digital influencers. Com isso, estabelecem uma relação de suposta intimidade com o seguidor, proporcionada por interesses compartilhados, facilitada pela velocidade de interação e pela falta de intermediários.

Essas pessoas acabam exercendo uma grande influência, principalmente entre crianças e adolescentes que estão em busca de novas formas de se comunicar, de expressar o que pensam, de participar da construção de sentido para a vida. Em alguns casos essa influência pode ser perigosa para a infância no sentido das crianças reproduzirem o que veem, sem filtro e sem crítica. Evidentemente, temos que considerar que o modo como cada um apreende o mundo é diferente, dependendo dos recursos materiais e simbólicos individuais e dos contextos em que estão inseridos.

Recentemente, um desses influenciadores, um jovem de 23 anos, com 2 milhões de seguidores, compartilhou um vídeo mostrando o resultado da brincadeira que fez com a própria mãe. Tal vídeo viralizou e a partir daí crianças e jovens começaram a reproduzir a brincadeira sem a menor noção do perigo que estavam correndo ou ocasionando ao amigo. A nova e perigosa brincadeira denominada "quebra-crânio" consiste em passar uma rasteira e derrubar uma pessoa que está posicionada no meio de outras duas, fazendo com que esta caia, podendo bater a cabeça. A brincadeira é gravada e compartilhada para se obter reconhecimento diante dos colegas, ou curtidas e seguidores nas redes sociais. Os especialistas alertam para o alto risco da queda causar danos no crânio, no cérebro e na coluna.

Sabemos da importância das brincadeiras na infância, de como elas contribuem de forma significativa para o desenvolvimento da criança, são fundamentais para a construção de conhecimentos e habilidades, oportunidade de socialização, interação, de encontrar desafios, lidar com suas limitações e conflitos, de compreender e traçar regras comuns, de significar e organizar sua realidade e seu mundo. Então, tanto as brincadeiras conhecidas e tradicionais, como as criadas no dia a dia a partir de experiências vividas, fazem parte do universo das crianças, em casa, com seus pares, em ambiente escolar ou em qualquer lugar ondem estejam, são salutares, muitas vezes criativas, mas, em algumas vezes, podem ser perigosas como o desafio em questão.

A velocidade da comunicação da mídia é imensa. Em uma semana, surgiu a brincadeira relatada acima, a partir daí vieram as críticas e o posicionamento de pais, professores, especialistas falando sobre o grande risco do desafio e até alguns vídeos de crianças e jovens falando sobre o cuidado e o respeito que temos que ter com nossos pares, para não colocarmos em risco a vida e a dignidade do outro.

Em poucos dias, já surgiu uma nova brincadeira, também de muito mau gosto, que também consiste em derrubar o outro. Nesse desafio, alguém chega por trás, passa uma corda, uma fita, um casaco, ou similar, que é rapidamente conduzido até a altura dos tornozelos e puxa a outra pessoa, desavisada e distraída, que cai, agora de frente, o que não significa que não é perigosa, podendo causar danos físicos, sem considerar também a situação vexatória na qual o outro é exposto.

O que podemos fazer diante dessas situações?

Na escola, é imprescindível que os profissionais estejam atentos às brincadeiras dentro desse espaço promovendo debates, diálogos e orientações, ressaltando os benefícios das brincadeiras, mas também alertando para os riscos que podem ocorrer, trabalhando com os alunos o estabelecimento de regras de respeito e de gentileza. É importante ajudar os jovens a perceberem os limites do seu próprio corpo e do corpo do outro, é fundamental conseguirem se colocar no lugar do outro e perceber o sofrimento do outro, que pode ser tanto físico como psíquico, dependendo do tipo de agressão.

Na família, é essencial os pais estarem presentes nas brincadeiras e atividades dos filhos, inclusive se atualizando e conhecendo, pelo menos, os youtubers seguidos pelos seus filhos para avaliar se os conteúdos desses canais são apropriados para sua faixa etária. Essa aproximação faz toda a diferença no crescimento deles, sendo possível aos pais compreenderem os medos e anseios da criança, além de permitir a criação de um vínculo e intimidade entre a família e as crianças podem enxergar o suporte que terão durante a vida, dando-lhes mais confiança em seu caminhar.

Não podemos moldar os pensamentos das crianças, mas podemos e devemos auxiliá-las no desenvolvimento do pensamento crítico, dando-lhes condições de conhecer e refletir sobre o mundo, desenvolvendo resiliência, autoestima, empatia, ensinando-lhes a lidar com o não, com a frustração, com a espera. Dessa forma se sentirão mais seguros e livres para expressarem seus sentimentos e fazerem boas escolhas.

* Psicóloga do Caop da Criança e do Adolescente e da Educação

 

Desafios

  • Água Fria:   É parecido com o Ice Bucket Challenge (Desafio do Balde de Gelo), que consistia em despejar um balde de água com gelo sobre a cabeça. Neste caso é preciso mergulhar em águas geladas, correndo o risco de hipotermia ou afogamento. Não há registro deste desafio ser executado no Brasil.
  • Balde de Gelo:   Desafio inofensivo que consiste em produzir vídeo jogando em si mesmo um balde com água e gelo. Alguns acidentes foram registrados dependendo do local em que se fez a brincadeira. Uma adolescente executou a brincadeira sobre um cavalo causando um acidente ao assustar o animal.
  • Canela:   É um jogo antigo. Engolir uma colher, ou mais, de canela sem beber água é o objetivo. O problema é que pode causar problemas respiratórios e de garganta. Há registro, na Europa, de mortes por asfixia.
  • Chubby Bunny:   Consiste em introduzir várias guloseimas na boca, o que pode causar morte por asfixia.
  • Desafio Bird Box:   Inspirado no filme "Bird Box", o desafio consiste na realização de tarefas propostas, com os olhos vendados, como: caminhar em locais públicos, atravessar ruas e transpor obstáculos, expondo seus participantes a sérios riscos e acidentes, como quedas e atropelamentos.
  • Desafio da Kylie Jenner:   Consiste em puxar ar no copo até os lábios incharem, rompendo as veias capilares da face - ficando com os lábios grossos como a da personalidade da mídia norte-americana Kylie Jenner.
  • Desafio do Desmaio (pressão no peito até desmaiar):   Tem que haver, pelo menos, duas pessoas para cumprir o desafio. Com a ajuda do outro participante, o jogador pede que este pressione os seus pulmões até expulsar todo o ar do corpo de forma a ficar inconsciente. Há ainda relatos de jovens que cortam o fluxo de oxigênio usando um saco de plástico na cabeça, ou uma almofada a tapar o nariz e a boca, novamente com a ajuda de outra pessoa. Este jogo é procurado por que tem curiosidade em recriar a sensação de desmaio. O número de óbitos é cada vez mais alto - nos Estados Unidos da América já morreram 672 pessoas graças a este desafio.
  • Desafio Momo:   Personagem que incita suicídio teria aparecido em vídeo infantil de slime no YouTube Kids; empresa pediu que usuários fizessem denúncias.
  • Fita-Adesiva:   Apesar de parecer um jogo inofensivo, pode provocar lesões graves. Alguém amarra os membros inferiores e superiores do jogador, que tem de se soltar o mais rapidamente possível. Os movimentos do participante para se conseguir libertar podem-lhe provocar lesões graves. O americano Skyler Fish, de 14 anos, foi o caso mais dramático ao cumprir o desafio na escola: ao libertar-se desequilibrou-se batendo a cabeça, ficou inconsciente, foi hospitalizado com um aneurisma e perdeu a visão num olho.
  • Fogo:   Objetivo: despejar líquidos inflamáveis pelo corpo e pegar-lhe fogo. As queimaduras são quase automáticas, e uma corrida para o hospital é certa. O vídeo de um rapaz do Kentucky, EUA, foi um dos mais visualizados. O jovem sofreu queimaduras de terceiro grau e partilhou o desafio na Internet para que sirva de exemplo.
  • In My Feelings:   Consiste em fazer a coreografia da música homônima de Drake, mas com um detalhe de perigo: tem que ser feita em cima ou ao lado de veículos em movimento.
  • Jogo da Asfixia (mata-leão):   Semelhante ao "Desafio do Desmaio", necessita de um auxiliar que lhe aplique um golpe de enforcamento até provocar o desmaio.
  • Jogo da Baleia Azul:   Apela à automutilação e ao suicídio.
  • Neknomination:   Surgiu na Austrália mas rapidamente se espalhou pelo mundo. Ingerir meio litro de bebida alcoólica de uma vez só é no que consiste o desafio. A única regra? Misturar diferentes tipos de bebidas, de forma a provocar inconsciência no jogador. Morreram duas pessoas na Inglaterra por causa deste jogo.
  • Planking:   Ser fotografado imitando uma tábua, apresentando um abdômen rígido. Tal como o "Tebowing" o perigo reside nos locais escolhidos para a foto, sendo que já se tem casos de mortes decorrentes da "brincadeira".
  • Preservativo:   Consiste em engolir um preservativo, o que pode causar morte por asfixia.
  • Quebra-Crânio (Desafio da Rasteira):   Consiste em uma "pegadinha" na qual duas pessoas incitam a vítima, entre elas, a saltar e passam-lhe uma rasteira quando estiver no ar - causando-lhe um violento tombo para trás.
  • Roleta-Russa Humana:   Consiste em ser girado por dois auxiliares. Com riscos semelhantes ao "Quebra-Crânio" esta brincadeira já causou fatalidades.
  • Sal e Gelo:   Os jovens colocam sal e cubos de gelo nas mãos e fecham-nas com força. O jogador que aguentar mais tempo a dor vence. O desafio é passível de provocar cicatrizes e queimaduras de segundo e terceiro grau. As lesões podem ser definitivas se as queimaduras atingirem os nervos, tornando coisas simples como escrever, pegar em objetos pequenos ou abotoar roupas impossíveis de realizar.
  • Tebowing:   Ser fotografado imitando a posição de oração do jogador Tim Tebow. Aparentemente inofensiva esta brincadeira começou a ficar perigosa quando os internautas começaram a fazer poses em locais perigosos.
  • Toca de Preservativo:   Encher um preservativo com água, como se fosse um balão, dar-lhe um nó e fazê-lo cair sobre a cabeça. Parece divertido de gravar e partilhar nas redes sociais, mas tem um lado muito perigoso, já que o preservativo arrebentado pode levar à asfixia - cobrindo boca e nariz.

 

Notícias

 

Vídeo

Alunos fazem vídeo contra 'desafio da rasteira' após assunto viralizar na web

(Imagens do Colégio Imaculada Conceição - Leopoldina/MG - Rede Filhas de Jesus)

[Fonte: Vídeo - Youtube - Canal O Vigilante on-line - 13/02/2020]

 

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Download:   (arquivos PDF)
»   Benefícios das mídias digitais para crianças e adolescente   (SMP - 2016)
»   Cartilha de Segurança para Internet   (CERT.br - 2012)

Referências:   (links externos)
»   Cartilha de Segurança para Internet (Cert.br)
»   Portal MPPR - Ministério público do Estado do Paraná
»   SaferNet

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