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19/09/2013

SAÚDE - Dia mundial de prevenção ao suicídio

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Mortes embaixo do tapete

Correio da Saúde - Edição nº 794

A partir deste ano, a data 10 de setembro será lembrada como dia mundial de prevenção ao suicídio. A escolha se deu pela Associação Internacional de Prevenção ao Suicídio e pela Associação Brasileira de Psiquiatria.

Por ano, 1 milhão de pessoas dão fim à própria vida no mundo (uma morte a cada 1,29 min). No Brasil, estima-se 9 mil suicídios (25 por dia).

O suicídio continua sendo tratado como tabu social, razão pela qual não é discutido abertamente e sobre ele não são desenvolvidas efetivas campanhas de saúde pública.

(Ver Folha de São Paulo de 10/09/2013, aqui).

No Brasil (e no Paraná), desde 2003, é a terceira maior razão de morte por causas externas. Ainda no PR, nesse âmbito, de 2001 a 2010, o suicídio foi a quarta causa de mortes (588 pessoas, em 2010).

No Brasil, foi proposta a Estratégia Nacional para Prevenção do Suicídio, bem como a Portaria GM nº 1876/06, que traça as diretrizes nacionais sobre a matéria, não implementada, entretanto, em sua plenitude, ao contrário do que ocorre em outros países.

Na compreensão do suicídio devem ser consideradas a sua importância epidemiológica e a relevância do quadro de comorbidade e transtornos a ele associados, as tentativas em populações vulneráveis, como aqueles portadores de transtornos psíquicos, depressões, usuários de álcool e outras drogas; populações residentes e internadas em instituições específicas (clínicas, hospitais, presídios e outros); adolescentes moradores de rua, gestantes e/ou vítimas de violência sexual; trabalhadores rurais expostos a determinados agentes tóxicos e/ou a precárias condições de vida; indivíduos portadores de doenças crônico-degenerativas; indivíduos que convivem com o HIV/AIDS e populações de etnias indígenas, além do aumento observado na frequência do comportamento suicida entre jovens entre 15 e 25 anos, de ambos os sexos, escolaridades diversas e em todas as camadas sociais.

A prevenção ao suicídio é cabível, principalmente, na atenção primária nos municípios. O MP pode solicitar à Secretaria Municipal de Saúde respectiva os dados existentes sobre o grave problema, bem como as providências adotadas para enfrentá-lo.

[Fonte: Correio da Saúde - Edição nº 794 - 18/09/2013]

 

Combater o tabu para evitar o suicídio

O suicídio é um tabu social, mas é também um problema de saúde pública - em escala global.

Herman Tacasey

(Pintura de Herman Tacasey)

Um milhão de pessoas se suicidam a cada ano em todo o mundo, o que representa uma morte a cada 1 minuto e 9 segundos. No Brasil, calcula-se que sejam pelo menos 9.000 óbitos por ano, 25 por dia - um número certamente subestimado.

No nosso país, tivemos um aumento de 30% da mortalidade por suicídio entre jovens, principalmente homens, nas últimas duas décadas. São milhares de brasileiros que perdemos todos os anos. Mas muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas.

Todos nós conhecemos alguém próximo que morreu por suicídio, ou fez uma tentativa grave. A despeito disso, não falamos no assunto, ou o fazemos à boca pequena.

É um assunto proibido. Não temos grande cobertura por parte da mídia, que, na maioria dos casos, acredita, erroneamente, que abordar o assunto incentivaria suicídios.

Não existem campanhas de saúde pública para tratar o tema. Nosso país, ao contrário de outros, ainda não tirou do papel sua estratégia nacional de prevenção ao suicídio.

Quando um assunto é tabu, não o discutimos abertamente, não estudamos, não pesquisamos. Jogamos para debaixo do tapete.

De onde surgiu esse estigma, esse tabu? O suicídio existe desde que existe o ser humano. Temos relatos de suicídios nas mais antigas e variadas culturas. Na nossa cultura, ocidental cristã, o suicídio se transformou pouco a pouco em uma questão problemática.

Santo Agostinho, ao ser nomeado bispo de Hippo, foi confrontado com a igreja donástica, um movimento depois considerado herético que venerava como santas as pessoas que se jogavam de alturas para atingir o céu.

Para enfrentá-los, santo Agostinho, no "Cidade de Deus", vai dar nova abordagem ao sexto mandamento - "não matarás" - com uma especificação: "Nem a outro nem a si próprio". Essa visão ganha força, e o suicídio se transforma não apenas em pecado, mas no pior dos pecados, a grande sina.

Por exemplo, o suicida não teria direito às honras fúnebres, não poderia ser enterrado em cemitério cristão. Quem tentasse suicídio seria excomungado. Essa visão impregnou corações e mentes.

Nos vários Estados nacionais que vão surgindo na Europa, os códigos penais previam punição ao suicida - por exemplo, pelo confisco dos bens, ou esquartejando o corpo do suicida. Quem tentasse suicídio poderia ser preso e, paradoxalmente, até condenado à morte.

Hoje, a maioria dos Estados não criminaliza mais o suicídio, embora alguns poucos, infelizmente, ainda o façam.

Sabemos hoje que praticamente 100% dos suicidas têm um transtorno psiquiátrico que muitas vezes não fora, entretanto, diagnosticado ou corretamente tratado. O sofrimento causado pela doença psiquiátrica e outros fatores podem levar a pessoa a pensar em se matar.

Identificar rapidamente pessoas com transtornos psiquiátricos, principalmente depressão, pessoas que falam em se matar, e sugerir a elas um tratamento adequado, o mais rapidamente possível, é algo que todos podemos fazer. Pressionar o poder público para estabelecer campanhas e estratégias de prevenção, com segmento de todas as pessoas que fizerem tentativas graves de suicídio, todos nós devemos fazer. Investir em mais estudos e pesquisas sobre o tema nos permitirá melhor compreendê-lo e prevenir o ato.

Discutir o assunto à luz do dia é nossa obrigação. Lutar contra esse estigma, contra esse tabu, salvará muitas vidas.

Daí a importância de se instituir, a partir deste ano, a data 10 de setembro como dia mundial de prevenção ao suicídio, o que foi feito muito acertadamente pela Associação Internacional de Prevenção ao Suicídio (Iasp) e pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Humberto Corrêa

HUMBERTO CORRÊA, 45, é presidente da Comissão de Estudos e Prevenção ao Suicídio da Associação Brasileira de Psiquiatria e representante no Brasil da Associação Internacional de Prevenção do Suicídio.

[Fonte: Folha de São Paulo - 10/09/2013]

 

Matérias relacionadas:   (links internos)
»  Calendário
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»  Saúde
»  Saúde Mental: Suicídio na Infância e Adolescência

Legislação:   (link externo)
»  Portaria MS nº 1.876/2006, de 14 de agosto de 2006

Referências:   (links externos)
»  Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Proteção à Saúde Pública
»  Correios da Saúde

 

 

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